O ABUSO NOSSO DE CADA DIA

Em 1972, Maria Schneider sofreu abuso de colegas no set e do público nas ruas. O “Último tango em Paris” não foi o último, tampouco se limitou a Paris. Mais de 40 anos depois, as Marias Schneiders são muitas.

Maria Schneider foi a atriz que contracenou com Marlon Brando no controverso “Último tango em Paris”. Sua vida é capaz de deixar quase qualquer um estarrecido. É de uma tristeza brutal.

A famosa cena da manteiga foi revelada a ela apenas no set de filmagens, momentos antes de ser rodada. As lágrimas eram reais. A atriz disse que se sentiu humilhada e exposta, sendo violada por Brando e Bertolucci mesmo que a violência física tenha sido fingida. A psicológica era verdadeira.

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Depois do filme, ela passou uma década em depressão. Tentativas de suicídio e abuso de drogas foram os caminhos que ela encontrou para se livrar do assédio masculino frequente nas ruas. Ela estava cansada de ser sempre lembrada por uma devassidão que não era sua.

Morreu em 2011, de câncer. Foi resgatada da dor por uma mulher. Schneider a chamava de anjo, e as duas permaneceram casadas até o fim.

Na ocasião da morte da atriz, Bertolucci finalmente se manifestou sobre o “incidente”: “sua morte chegou cedo demais, antes que eu tivesse a chance de abraçá-la carinhosamente e dizer que me senti conectado a ela desde o primeiro dia. E para, de uma vez por todas, pedir que me perdoasse”.

Alguns abraços chegam tarde. Algumas desculpas, também.

Mesmo após a morte, a cena que lançou Maria Schneider para a fama continua controversa. Agora, não só pelo viés sexual. Hoje, a reação de muitos à cena, aliada ao contexto, denuncia nossa reação ao abuso.

Você pode achar incrível, mas muitas pessoas dizem que, por ser atriz e aceitar participar de um filme erótico, Schneider devia estar preparada para momentos desconcertantes. Outros defendem que a arte requer sacrifícios, citando o abuso de Shelley Duvall por Stanley Kubrick durante as filmagens de “O iluminado”. Segundo essas pessoas, a rigidez do diretor é justificada pelo resultado magnífico.

Seria perfeito se o mundo fosse diferente. Nesse mundo, as pessoas se chocariam com a crueldade sofrida pelo outro. Nesse lugar, nada justificaria o sofrimento de alguém: nem um trabalho perfeccionista, nem a assinatura de um contrato, nem a saia curta.

No mundo real, no entanto, aguentamos os abusos de chefes intolerantes porque isso é comum no mundo corporativo. Aguentamos os rótulos impostos pela sociedade a mães solteiras, a mulheres traídas, a mulheres que abortaram porque elas pediram por isso. Aguentamos a agressividade virtual porque nem deveríamos nos importar com ela: não machuca.

Às vezes o que toleramos por muito tempo acaba vencendo a guerra contra nossa autoestima. Então algumas pessoas se partem. Elas se viciam em algo, ou choram demais, ou bebem demais, ou perdem o gosto pela vida, ou se fecham dentro de si. Não importa. Já ficou tarde para elas.

E quando a tragédia acontece, como no caso de Maria Schneider, o mundo lamenta. Por um breve instante, o mundo a perdoa por ter sido mulher, ter sido jovem, ter sido frágil, sozinha e inexperiente.

Vale lembrar que alguns lamentos chegam tarde. Algumas absolvições, também

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julio tafforelli

Engenheiro químico, estudou psicanálisedurante vários anos e outrs terapia altenativas foi atendente no CVV. Conhece bem a índole humana e os caminhos de mudança interior. Pratica meditacão

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