O ÚLTIMO TANGO EM PARIS, MÁ FÉ E A RESPONSABILIDADE DE NOSSAS ESCOLHAS

A vida não tem volta. E por mais que nos abramos em tentativa de revelar nosso ser em toda sua autenticidade, sempre haverá fantasmas e maravilhas daquilo que poderíamos ter sido e nunca seremos, daquilo que poderíamos ter feito e nunca faremos. Daquilo que imaginávamos ser ideal e que se perdeu na tangível realidade da vida factual.

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O que é realidade? É possível inventar uma realidade completamente diferente da que se está vivendo? Reinventar-se significa modificar ou omitir dados da sua história ou reinventa-se somente a percepção de quem se foi, já que os dados estão presos no tempo?

O que os fatos a nosso respeito dizem sobre nós? Por fatos refiro-me a nossos nomes, endereços, local de nascimento, dados familiares. Para Sartre, por exemplo, tais dados factuais jamais podem ser negados. Para ele nossa liberdade é relativa. Ela é sempre tolhida pelas escolhas que foram feitas no passado e que não são passíveis de mudança.

Agir de maneira a fingir que o local do seu nascimento é outro, ou que o nome na sua certidão de nascimento é outro constitui, para Sartre, um ato de má fé. Afinal, somos responsáveis pelo passado e pelas escolhas que fizemos. Cada escolha, inevitavelmente já elimina outras possibilidades. A pessoa não pode voltar a ser nada se ela já escolheu ser algo. Somos livres para escolher, mas somos reféns das nossas escolhas.

Este filme mostra situações onde o relacionamento com estranhos pode funcionar como uma espécie de fuga da realidade. Como que se, ao omitir os fatos que nos contextualizam, pudéssemos inventar qualquer outro personagem que nada tem a ver com a história vivida, com as escolhas previamente feitas.

A vantagem de conversar com estranhos é poder criar outras possibilidades para si que não estão amaldiçoadas pela ideia de realidade. Presas como em calabouços onde as vontades estão acorrentadas pelas responsabilidades do real.

No caso de Paul, a vida passa por um momento tão doloroso que a melhor solução, ainda que momentânea, pareça ser criar outro universo onde todo aquele outro não exista. Uma negação necessária para uma dor insuportável de uma vida que tomou rumos não desejados e se perdeu num mar de horrores. O recente suicídio de sua esposa o leva a questionar se alguma vez ele a conheceu realmente. Será mesmo possível conhecer alguém de fato?

Para Jeanne, uma jovem de 20 anos prestes a se casar e enfrentar as responsabilidades da vida adulta, escapar da realidade significa voltar a infância. Regressar a um momento onde a vida era poética e lúdica. Quando brincar de ser adulto era divertido e que, a qualquer momento, a brincadeira acabava e todos os problemas se dissipavam como mágica.

Para ambos, embora por razões diferentes, era excitante a ideia de um orgasmo presente e ao mesmo tempo distante de si mesmos. Distante das máscaras existenciais que após demorado uso, transformam-se em pele aprisionando a liberdade ilimitada de um ser sem nome.

Com o tempo, ela apaixona-se pela ideia de viver uma infância eterna ao lado dele e ele, apaixona-se pela ideia de uma última chance no amor e resolve abrir-se e deixar a realidade entrar no quarto escuro do mistério.

Segundo Discépolo, tango é um pensamento triste que se pode dançar. É uma encenação. A cena onde o casal dança um tango improvisado em meio a uma competição é uma representação da relação não ortodoxa do casal e ao mesmo tempo realista onde as coisas não são bonitas como num filme. A realidade é feia e escrota. Mas é nesta feiura que o amor é vivido e não no brilho plástico de uma realidade idealizada.

Neste momento, ela percebe que não é a Paul quem ela ama, e sim a ideia de transgressão, de mistério encarnado. Afinal, mesmo quando sabemos e conhecemos os fatos que fazem parte da vida de alguém sempre há algo de desconhecido.

Sempre há um quê de mistério nos rincões empoeirados das escolhas não realizadas. Há sempre várias outras possibilidades dentro de cada um. E para cada possibilidade que se foi, para cada caminho tomado, há uma curva que se fecha. Uma lâmpada que se apaga.

A vida não tem volta. E por mais que nos abramos em tentativa de revelar nosso ser em toda sua autenticidade, sempre haverá fantasmas e maravilhas daquilo que poderíamos ter sido e nunca seremos, daquilo que poderíamos ter feito e nunca faremos. Daquilo que imaginávamos ser ideal e que se perdeu na tangível realidade da vida factual.

Reinventar-se é perceber-se de outra maneira. É modificar a lente sob a qual enfocamos o olhar. Alteramos como vemos o mundo, como vemos a nós mesmos, como vemos nossa relação. Não controlamos quem morre ou quem vive; quantos anos vivemos; a história que tivemos.

Nos reinventamos na medida que somos capazes de reler nossa história como quem relê um livro empoeirado guardado na estante. As palavras são as mesmas mas mudam-se as perspectivas. Mudam-se as relações. De tal sorte que, em algum momento já não importa mais quem somos de fato e sim como somos em relação a algo ou alguém.

Paul e Jeanne só são algo um para o outro quando estáticos no vácuo de uma existência sem comprometimento com o que foi vivido. É uma relação que nega a si mesma por definição. Afinal, somos uma relação com a nossa história, sem a qual não somos passíveis de interpretação. Onde não há lugar a re-interpretação e re-significação de si mesmo é impossível reinventar-se na natureza temporal das relações.

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julio tafforelli

Engenheiro químico, estudou psicanálisedurante vários anos e outrs terapia altenativas foi atendente no CVV. Conhece bem a índole humana e os caminhos de mudança interior. Pratica meditacão

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